Monotipias No museu de Francoforte, a Senhora vestida de vermelho de Pontormo olha para nós, altiva e quase irónica. O pequeno Spaniel ao seu colo repete-lhe a expressão, mas de forma triste e quase cómica. A expressão de senhora tem espírito. É o contraponto da expressão apenas animada do animal que permite ao pintor epiritualizar a face do modelo. Não é um retrato duplo, mas sim um arco entre duas expressões que possibilita o eclodir de um retrato único. O rosto está quase de frente, o corpo está sentado, a três quartos, vestido de vermelho, um vermelho magnificamente denso, mangas de veludo verde, de um verde escuro quase negro e com camisa branca, finamente plissada e bordada, onde sobressai um colar de ouro de um desenho extraordinário. O ambiente que rodeia o modelo é simples e todo verde. O pintor, inventor de poses, criador das relações entre o que está presente no quadro, inventor do desenho, executa a pintura, camada após camada, procurando atingir a imitação perfeita das superfíceis, da pele, dos tecidos, do pêlo. As pinceladas fundem-se, desaparecem, esmaltam-se, criam uma imagem absolutamente densa e opaca. O retrato a óleo, de onde prvêm a maioria das referências destas monotipias, mesmo que procedam, passo a passo por camadas transparentes, finalizam-se numa matéria compacta, bem alimentada, sem poros. Na monotipias estamos no terreno do frágil e do poroso. Aqui a imagem é homóloga em toda a sua superficie, unitária, quase sem espessura, rala e aérea. Todas as diferentes qualidades de superficie a que na realidade se refere são subsumidas por este ser material único. Estas imagems não deixam transparecer nada através dos seus poros. Estas monotipias procedem a uma encenação de um cenário poroso. As mulheres retratadas, as vestes, os animais de companhia, o ambiente, tudo está sujeito a esta imanência aérea e a esse momento único de revelação, próprio da monotipia. Durante os anos cinquenta do século dezassete, Velázquez executou variados retratos de infantas da casa de Áustria. Nessas pinturas atingiu um nível extraordinário de resolução entre os imperativos da ilusão e a expressão do acto de pintar. O ponto máximo de ilusão exige uma distância por parte de quem vê. Quando o espectador se aproxima do quadro é a extraordinária variedade dos gestos, as sobreposições dos traços do pincel, os tempos e as velocidades da pintura que se revelam. A distância própria da ilusão tem a faculdade de suspender o tempo. A aproximação multiplica e qualifica os diversos tempos próprios da pintura. Podemos imaginar o pintor, ao longo do tempo, como espectador dos seus momentos de execução e dos intervalos entre eles. Os sinais dessa vivência temporal estão absolutamente patentes no quadro. Na monotipia o tempo de revelação da obra ao próprio autor é momentâneo. Mesmo que, como no caso das obras presentes nesta série, o esmero e o cuidado da impressão manual da no papel consumam muito tempo, é no momento em que o papel se descola da superfície previamente pintada, que a obra se revela ao autor: completa, em absoluto, num momento único. Um momento de surpresa e revelação que só a ele pertence. Nesse momento a visão obra ainda não é estável, ainda é uma imagem densa que se torna mais porosa ou uma imagem porosa que se torna mais densa. É neste curto arco de vida que reside a essência e fascínio da impressão única. Este trabalho é ainda genericamente um trabalho de gravura, mas pelas suas particulares características técnicas, e, neste caso, também, pelas suas referências, coloca-se na tangência da pintura. É também como a pintura uma encenação da pele, mas, aqui, da fragilidade da pele que se revela em veste, em pelo e em cenário. Os elementos presentes nestas obras são convocações dos quadros dos antigos mestres de retrato. Estes elementos recombinam-se numa permutação constante e de possibilidades infinitas. A pose, a atitude, a cor, o ambiente, a expressão, o animal que acompanha e pontua o quase-retrato, podem ter vindo de lugares e tempos diferentes, mas reencontram-se numa alquimia sensível e intuitivamente orientada, num universo frágil e poroso, onde temos, constantemente, a possibilidade de mudar os vestidos e os cenários das figurinhas de papel que constituem o horizonte histórico daquilo que nos pensamos. João Queiroz |